2/15/2018
Carnaval
Há milhares de anos os camponeses contentes com a colheita festejavam seus deuses em cerimônias rituais coloridas e movimentadas: mascaravam-se imitando animais, numa tentativa de aproximação com a natureza, que tão amiga lhes fora.
O enfeite dos corpos e a alegria das almas atravessaram tempos e culturas, insinuando-se nas tradições de todas as sociedades, qualquer que fosse seu grau de desenvolvimento: festejos ruidosos e turbulentos comemoravam todos os eventos que os justificassem; como um carnaval. Eram pagãs essa festas. Foram toleradas pela igreja Católica, durante a idade média, depois de ordenadas e regulamentadas. Mas os limites impostos adulteravam a natureza das festas.
O uso de máscaras, contudo conseguiu sobreviver, embora com o passar do tempo acabasse se restringindo às camadas sociais de elite. Assim, em meados do século XIII os elegantes bailes de máscaras já se tornavam uma tradição.
O povo, porém fazia sua festa nas ruas, com danças improvisadas e nenhuma sofisticação. Só no renascimento, as máscaras voltaram a se popularizar, difundindo-se também o uso das fantasias. Batalhas de bolotas de gesso ou de água também se incorporaram aos carnavais.
Depois da metade do século XIX, o carnaval se generalizou de tal forma na Europa, que até Londres, as mais puritanas das cidades, o festejou sem constrangimento. No começo do século XX os carnavais quase desapareceram da Europa.
Primitivamente, o carnaval ia de 25 de Dezembro, Natal, até o dia de Reis. A igreja Católica, quando regulamentou, marcou a data dos festejos para sete domingos antes da Páscoa. E foi num desses domingos que o carnaval chegou ao Brasil, vindo de Portugal.
Sem submeter-se a essa data estritamente, começou a ser festejado em outras ocasiões: na chegada de um personagem importante, por exemplo. Armavam-se palanques, todos ficavam irrequietos, e até as mulheres, fato inédito, saíam as ruas, para ao menos presenciar os acontecimentos. A folia já chegou ao Brasil estigmatizada.
Os hábitos carnavalescos Portugueses, barulhentos e violentos, transplantaram-se para a colônia. Principalmente o de entrudo, ou seja, as batalhas. Batalhas de ovos crus, de cartucho de pó, de panelas de vários líquidos; de tremoço, milho, feijão, soprado por tubos; de areia, quinquilharia e, sobretudo, litros e litros de água.
Para puxar o Cordão
Os Negros vieram também do Congo. E puxaram seus ritos, ritmos e danças. Nas festas saíam às ruas, para divertir os Senhores, que assistiam as suas exibições passivamente, sentados nos balcões, isolados nos terraços. Os negros desfilavam com máscaras e fantasias, executando seus rituais, já bastante modificados por tanto tempo de escravidão no Brasil sob a influência do Catolicismo.
Principalmente o ritual dedicado a Senhora do Rosário eram "adaptado" para os festejos carnavalescos: consistia na repetição de uma cantiga, provocada por um estímulo daquele que seria uma espécie de "solista". Havia sempre, também, uma coreografia e outras músicas. Daí provavelmente se originou o "cordão" .
Era uma roda de foliões que se davam as mãos e eram "puxados" por outra roda. No começo os cordões eram uma mistura de Reis, Rainhas, Bichos, Índios, Palhaços, Diabos, em alegre confraria, os pés irrequietos marcando os compassos no chão, o indivíduo que guiava ia fazendo malabarismos e acrobacias. Em geral possuíam um conjunto de instrumentos musicais, principalmente os de percussão, reminiscências das fontes Africanas: tambor, tamborim, reco-reco e cuíca. E com as tribos africanas fossem totêmicas, ou seja, acreditassem no poder sobrenatural de certas flores, plantas, animais, e fenômenos naturais, adotando seus nomes os cordões guardaram essa característica; o primeiro deles, que em 1885 foi licenciado pela polícia para sair no carnaval, chamou-se Flor de São Lourenço após este foram surgindo outros.
A hora do rancho
Macaco é Outro era o nome de um dos primeiros ranchos. Saiu à rua em 1908. Já em 1908 os ranchos tinham substituído definitivamente os cordões. A diferença entre os dois grupos é que no desfile do rancho, tudo gira em torno de uma história, de um enredo. Isso remonta ao folclore americano, às danças que simulavam a coroação da "rainha". Havia também o "rei" e toda uma "tribo" que lhe prestava homenagens, cantando e fazendo trejeitos com o corpo.
Fantasia
Dois cariocas saíram à rua: um trajava roupas de fazendeiro; o outro os farrapos dos escravos, as correntes e tudo mais. Esse chorava protestando contra a violência do amo que o ameaçava e açoitava cada vez mais. Isso foi na época da campanha abolicionista, e os dois personagens eram foliões de acurado senso crítico. É que os carnavais serviam para a formulação de críticas, facilitadas pelo uso de fantasias.
Depois, a primeira guerra mundial e a subseqüente crise financeira atingiram o carnaval brasileiro: as fantasias se simplificaram, tornando-se mais modesta. Entretanto ganharam em originalidade tornando-se mais típicas, mais regionais. Não foi só essa a modificação que o tempo e as transformações históricas trouxeram ao carnaval.
A introdução do automóvel, por exemplo, redundou no advento do "corso". Foi assim: no Domingo gordo do carnaval de 1907, por volta das 17:00 horas, adentrou a Av. Central, na Cidade do Rio de Janeiro, o automóvel presidencial: transportava as filhas do presidente Afonso Pena. O veículo fez todo o percurso da avenida, de ponta a ponta, tendo parado, na volta, em um prédio de cujo balcão a família presidencial assistia às brincadeiras de rua. Logo depois, vários carros iam e vinham pela avenida. Os foliões mais audazes começaram a lançar para dentro dos outros automóveis, confetes e serpentina, lança perfume, flores. Estava instituído, assim mais um folguedo carnavalesco: O Corso.
Fonte: Extraído da coleção CONHECER da Ed. Abril Cultural

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